"Tornei-me, acaso, vosso inimigo porque vos disse a verdade?" Gálatas 4, 16.
O ditado "perco a amizade, mas não a piada" é conhecido. Muito menos jocoso, contudo, seria um ditado elaborado a partir do título desta postagem. Todos nós já passamos por alguma situação na qual enfrentamos o dilema de dizer a verdade, e contrariar um amigo, ou sermos omissos e mais "populares". No ano que iniciei a minha formação como historiador - e segundo Cícero (106-43 a.C.) a 1ª coisa que se espera de um historiador é que diga sempre a verdade - li uma entrevista intrigante. Nela um filósofo chamado David Livingstone Smith simplesmente defende a mentira como elemento essencial à manutenção da ordem social:"(...) A mentira traz vantagens indiscutíveis. Bons mentirosos são mais populares e bem-sucedidos. (...) A mentira é o pilar das relações sociais." [ 1]
A Bíblia e a filosofia antiga ensinam-nos o contrário. Na passagem que encabeça essa postagem - passagem essa que integra os textos da lição da Escola Sabatina da próxima semana - encontramos o desabafo de um Paulo transtornado com os amigos que o deixaram após ele dizer a verdade. Mesmo assim ele preferiu dizer a verdade.
Ninguém defende aqui o extremo do "super-sincero" [ 2] que, justamente por se tratar de um absurdo, deu azo ao humor. Não devemos ser inconvenientes e, sob o pretexto da verdade, "disparar" críticas e ataques para todos os lados. Mas há momentos delicados em que devemos dizer a verdade, mesmo sob o risco de perdermos um amigo. Ou até algo mais importante.
Penso no caso de João Batista. Aparentemente, Herodes Antipas era seu amigo. A Bília diz (em sua versão católica) que o tetrarca da Galileia e da Pereia o "respeitava", "protegia" e de "boa mente o ouvia." E o que João lhe dizia? Simplesmente que não lhe era lícito viver em adultério com a cunhada! Definitivamente, esta não era uma verdade que aos olhos humanos convinha ser dita. De fato, Herodes sentia-se "embaraçado" ao ouvi-la. Mas o fato de ouvi-la de "boa mente" é prova de sua amizade com o precursor de Cristo.
João não perdeu a amizade de Herodes. Mas, de antemão, não sabia se seria assim. Tinha apenas a consciência de seu dever, e dos riscos que ele comportava. Como sabemos, sua santa ousadia custou-lhe a cabeça (ver a imagem), num ardil perpetrado pela adúltera mulher do monarca.
João Batista iria ainda mais além no ditado que concebemos. Ele diria: "perco a cabeça, mas não a chance de dizer a verdade." [ 3]
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[ 2] Veja um vídeo do personagem interpretado por Luiz Fernando Guimarães:
[ 3] Leia o artigo Deveríamos dizer sempre a verdade, mesmo com risco de vida?, de Ron du Preez em http://dialogue.adventist.org/articles/13_2_preez_p.htm
- Imagem: Salomé com a cabeça de João Batista, Michelangelo Caravaggio (1607). Leia a história do martírio de João em Marcos 6, 17-29.

4 comentários:
Sensacional. Que arranquem as cabeças [os ignorantes].
Cara... Acredito que dizer a verdade, custe o que custar, é uma forma de dizer a si mesmo o quão sincero você é (e até aos outros). Dizer a um amigo o que ele precisa ouvir e não o que ele precisa saber, é a forma de mostrarmos o quanto ele é especial e importante para nós. Raphael L. Teixeira, tem um lado que precisa ser pensado. Até que ponto essa verdade nua e crua nos ajuda? Não é que sou oposto a verdade, mas convém (e isso é mais do que lógico), pensar e, se possíve,l ficar calado na hora que você for soltar certa verdade ou mentira. Concordo plenamente com tudo que disse e de antemão, belo texto, mas pensemos: Até quando essa verdade é boa pra mim? Até quando essa verdade vai ser boa para meu próximo? Como devo lidar com verdade/sinceridade, sendo que, andam lado a lado. Cara, seu texto é top, mas precisamos pensar nisso. Abração meu amigo, saudades.
Boa observação, Kassyo Henrique Fragoso. Poderia ter desenvolvido mais esse aspecto, mas preferi concentrar-me mais em discutir a importância de dizer a verdade nos momentos em que ela deve ser dita. E queria também deixar um espaço aos comentários. De qualquer forma, você desenvolveu o seguinte: "Ninguém defende aqui o extremo do ’super-sincero‘ [ 2] que, justamente por se tratar de um absurdo, deu azo ao humor. Não devemos ser inconvenientes e, sob o pretexto da verdade, ‘disparar’ críticas e ataques para todos os lados."
“Não devemos adular o mundo nem pedir-lhe perdão por ter que dizer-lhe a verdade. Devemos desprezar toda dissimulação. Arvorai a vossa bandeira para pelejar pela causa dos homens e dos anjos. Entenda-se que os adventistas do sétimo dia não podem aceitar transigências. Em vossas opiniões e fé não deve haver a menor aparência de incertezas. O mundo tem direito a saber o que esperar de nós” (Ellen G. White, Evangelismo, p. 179).
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